Corto minhas mãos, mas a sujeira não sai;
Limpo-as na terra onde cultivo flores;
Planto meus sonhos na chuva que cai,
Germinam tédios, anseios, temores.

O meu sorriso vai aonde fores,
Oh, solidão alheia a tanta gente...
O meu silêncio sente o que tu sentes:
Prazer, desejo, inspiração e dores.

Traço perfis de inusitadas cores,
Mas meus rabiscos perdem-se em silêncios
Que se projetam de alguns dissabores
E se diluem, trôpegos, num lenço.

O meu olhar é de um fulgor intenso
Quando ele fita raios de luar;
Meu coração é o sonho que repenso
Quando os desejos são ondas do mar.

Olho a semente sutil germinar
Cresço com ela procurando a luz
E encontro a calma doce de um olhar
Que me cativa, comove, seduz...

O abismo chama, mas pairo no ar,
Observo planícies enquanto levito,
E sinto no vento o cheiro do mar...
Um barco desliza em meu sorriso aflito

Sigo esse rastro, vem um beija-flor,
Toca minhas pétalas, me poliniza;
Meu abandono é um leque de amor
Recriando a paz num sopro de brisa

O passado chega e nem sequer me avisa
E toma posse do meu coração;
Fecho meus olhos, um sonho improvisa
Um velho palco feito de emoção.

E no cenário, jovens bailarinas
Dançam felizes tão dentro de mim
Que me projetam nessa névoa fina
De som e sonho que não tem mais fim.

Eu sou, assim, um espírito que voa
Fora da asa, livre, repentino,
Um passarinho, um peixe, uma canoa
Dentro dos sonhos sutis de um menino.



Autoria: Luiz Poeta - Luiz Gilberto de Barros
Direitos Reservados
Biblioteca Nacional
RJ

 

 

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